Celular causa câncer no cérebro? Mito ou verdade

MENTIRA — e os números são teimosos.

É o medo mais antigo da era do celular: você encosta o aparelho na cabeça, ele fica quentinho, e alguma coisa dentro de você imagina o pior. A pergunta é boa. A resposta, felizmente, é chata — e chato, em ciência, costuma ser ótimo.

Comecemos pela física, que é onde o mito nasce torto. A radiação do celular é **não-ionizante**: ela tem energia para sacudir moléculas (por isso o aparelho esquenta), mas não tem energia para arrancar elétrons e quebrar o DNA. Quem faz isso é o raio-X, o ultravioleta forte, o material radioativo. Comparar um celular com uma chapa de raio-X é como comparar um empurrãozinho com um soco: não é só uma questão de intensidade, é outra categoria de coisa.

Agora a parte que encerra a discussão — a epidemiologia. Se o celular causasse tumor no cérebro, o gráfico seria constrangedor: o uso explodiu de quase ninguém, nos anos 90, para praticamente toda a humanidade hoje. Os registros de câncer de vários países, acompanhando décadas e milhões de pessoas, mostram que a incidência de tumores cerebrais **não acompanhou essa curva** — ficou praticamente estável. Em 2024, uma revisão sistemática encomendada pela Organização Mundial da Saúde, cobrindo mais de 5 mil estudos, chegou à mesma conclusão: não há associação.

E o famoso "a OMS classificou como possivelmente cancerígeno"? É verdade — em 2011, a IARC pôs a radiofrequência no grupo 2B, que significa "não dá para descartar, faltam dados". Só que o grupo 2B é um clube bem menos assustador do que parece: dividem a lista com o celular a babosa em extrato e os legumes em conserva à moda asiática. 2B não quer dizer "causa câncer"; quer dizer "ainda não temos evidência suficiente para dizer que não". Uma frase honesta que virou manchete de terror.

Se você quiser mesmo reduzir sua exposição, use fone ou viva-voz — não porque o celular vá te dar um tumor, mas porque é mais confortável. O risco real de usar o telefone o dia inteiro é outro, e bem menos glamouroso: o pescoço.

Fonte: Revisão sistemática encomendada pela OMS (Karipidis et al., Environment International, 2024), registros nacionais de câncer e a classificação 2B da IARC (2011).

Em 20 segundos, no boteco:

Mais mitos da tecnologia: